muito se tem pensado

que é como quem diz - muito EU tenho pensado - sobre a ausência dos amigos, sobre as amizades que se reatam, que se esvaem, que hibernam, que se constroem ou se desconstroem, fruto, em boa medida, de uma "ausência" da minha parte (palavras de outros e não minhas).
embora ainda incapaz de sistematizar exactamente aquilo que penso, parece-me justo e lógico explicar que esta é a época do ano em que tenho mais trabalho. em que entro às 9 e saio às 24 e em que o cansaço me agasta mais e mais, deixando-me incapaz de articular raciocínios coerentes, ou mesmo de me manter socialmente presente.

enquanto isto anda a bulir cá dentro, digam-me a vossa opinião. não ganham 1 milhão de euros, nem mesmo 2 milhões de euros, não fazem com que diminua a dívida nacional, nem mesmo os juros da mesma. (que são, no fundo, os outros temas que andam a bulir cá dentro).

eu chorei a rir

e ainda dizem que eu sou boca-de-trapos... ;)

a atipia

este foi um fim de semana atípico, a concluir uma semana atípica: talvez do ano inteiro, foi a semana que mais senti o trabalho "aos soluços", ou seja, ora há muito, ora não há nenhum.
tive reuniões para discutir a incompetência de alguns e que, embora muito desgastantes se revelaram inúteis. parece-me que a falta de profissionalismo e incompetência alastra globalmente neste mundo globalizado...
já o fim de semana... sábado fui levar a minha cadela novamente à veterinária para mais uma abdominocentese. (estou muito preocupado, porque hoje ela estava muito mais caída...). levei o meu amigo joão a experimentar sushi (do qual, por sinal, ele não ficou muito fã) mas terminei a noite à chuva, no meu terraço alagado, a tentar com que a água, que estava a 2 centrímetros de me entrar em casa, não o fizesse. naturalmente não dormi nada. não é fácil dormir com o coração nas mãos.
hoje, de manhã, brinquei com a minha sobrinha mais nova. à tarde resolvi arrumar o meu armário dos livros. arquivar algumas revistas velhas, colocar para reciclar outras. parei para lanchar e decidi não continuar. estava a ficar escuro e não me apetecia perder mais uma tarde apenas a arrumar.
nas arrumações tinham-me aparecido dois filmes que tinha comprado e que decidi rever: "negros hábitos" e "má educação" ambos de almodóvar. pude, entre gargalhadas, ficar a pensar na perspectiva que ele tem de deus e que perpassa por muitos dos seus filmes. reassumi-me seu fã, e guardei as saudades de outros filmes dele. no próximo fim de semana, talvez...

você...

há muitos anos tive uma conversa com o Gonçalo Rosas e a Isabel Coelho dos Santos em que eles me falaram deste texto de brecht. tenho-me lembrado muito dele, e penso que em grande parte à situação política do país. consigo - com demasiada facilidade, por sinal - imaginá-lo na boca de pelo menos 2 proeminentes figuras políticas. senão veja:

"Sente-se.
Está sentado?
Encoste-se tranquilamente na cadeira.
Deve sentir-se bem instalado e descontraído.
Pode fumar.
É importante que me escute com muita atenção.
Ouve-me bem?
Tenho algo a dizer-lhe que vai interessá-lo.

Você é um idiota.

Está realmente a escutar-me?

Não há pois dúvida alguma de que me ouve com clareza e distinção?
Então Repito: você é um idiota. Um idiota.
I como Isabel;
D como Dinis;
outro I como Irene;
O como Orlando;
T como Teodoro;
A como Ana.
Idiota.

Por favor não me interrompa.
Não deve interromper-me.
Você é um idiota.
Não diga nada.
Não venha com evasivas.
Você é um idiota.
Ponto final.

Aliás não sou o único a dizê-lo.
A senhora sua mãe já o diz há muito tempo.
Você é um idiota.
Pergunte pois aos seus parentes.
Se você não é um idiota...
claro, a você não lho dirão, porque você se tornaria vingativo como todos os idiotas.
Mas os que o rodeiam já há muitos dias e anos sabem que você é um idiota.
É típico que você o negue.
Isso mesmo: é típico que o Idiota negue que o é.
Oh, como se torna difícil convencer um idiota de que é um Idiota.
É francamente fatigante.
Como vê, preciso de dizer mais uma vez que você é um Idiota e no entanto não é desinteressante para você saber o que você é e no entanto é uma desvantagem para você não saber o que toda a gente sabe.
Ah sim, acha você que tem exactamente as mesmas ideias do seu parceiro.
Mas também ele é um idiota.
Faça favor, não se console a dizer que há outros Idiotas: Você é um Idiota.
De resto isso não é grave.
É assim que você consegue chegar aos 80 anos.
Em matéria de negócios é mesmo uma vantagem.
E então na política!
Não há dinheiro que o pague.
Na qualidade de Idiota você não precisa de se preocupar com mais nada.
E você é Idiota

(Formidável, não acha?)"



Bertolt Brecht