parece mentira...

tive hoje a minha ultima reunião deste ano... parece mentira...

dedo no ar

toda a gente que está farta de e-mails com animaizinhos pseudo-fofinhos que ponha o dedo no ar...

há dias em que mais vale...

Há dias
Em que não cabes na pele
Com que andas
Parece comprada em segunda mão
Um pouco curta nas mangas

Há dias
Em que cada passo e mais um
Castigo de Deus
Parece
Que os sapatos que vês
Enfiados nos pés
Nem sequer são os teus

A noite voltas a casa
Ao porto seguro
E p'ra sarar mais esta corrida
Vais lamber a ferida
Para o canto mais escuro

Já vi
Há dias em que tu
não cabes em ti

Avança
Na cara desse torpor
Que te perde e te seduz
A espada como a um Matador
Com o gesto maior
Do seu peito Andaluz
Avança
Com a raiva que sentes
Quando rangem os dentes
Ao peso da cruz

Enfim,
Há dias em que eu
Também estou assim

Parece que pagamos os
Pecados deste mundo
Amarrados aos remos de um
Barco que está no fundo.

[letra de uma música dos ala dos namorados com os vozes da rádio]

©

o ney matogrosso tem um espectáculo chamado "canto em qualquer canto". será que ele andou a ler o meu blog?

estudar para os exames [receita]

agarrar numa batedeira de varetas e bater as entranhas. tirá-las do corpo, juntar-lhe quadradinhos de calcário e pôr tudo na máquina de lavar no programa de centrifugação. juntar brita q.b. e voltar a mexer. pegar no resultado, recolocar no corpo. atar o corpo ao nariz de um avião, e cair a pique numa estrada de asfalto negro e fumegante de um dia de calor. enfeitar com um coração em papa.


sempre entendi que se fizessem sacrifícios.
nunca entendi que os fizéssemos sem sentido.

"mochila às costas..."

hoje foi a missa dos finalistas no colégio. O Zé Miguel, o Tiaguito, a Pingas e a Filipa escreveram estes textos para a entrega de 4 símbolos no ofertório: um cajado, umas botas, uma seta amarela, e uma mochila.

estas palavras não são minhas mas dizem-me da mesma forma que me dizem os abraços que eles me dão.

...

"o cajado
Senhor,
Este é o cajado dos nossos Caminhos, símbolo do apoio em subidas e descidas, testemunho de momentos de cansaço, solidão, lágrimas, mas também de sorrisos, alegrias e incentivos.
Este é um dos objectos que nos ajuda a “agarrar” o Caminho, a sentir o poder dos últimos passos até à Catedral até à Catedral e a entender que esse momento é apenas “um detalhe” final de uma Lição de Vida.
No Caminho de Santiago deparamo-nos com os nossos horizontes e com as nossas fronteiras, descobrimos o valor das pequenas coisas que nos escapam no Caminho da Vida, crescemos, enriquecemo-nos, valorizamo-nos. No Caminho perdemo-nos, encontramo-nos, envolvemo-nos numa experiência inesquecível e indizível.
Tal como este objecto, também Tu, Senhor, és Aquele que nos apoia, tantas e tantas vezes, para descansar o peso da “mochila”, do corpo, da alma...
Obrigado Senhor por seres muitas vezes o cajado da nossa Vida!



as botas

Com estas botas percorri seis caminhos de S. Tiago. Nunca as usei para outros caminhos, e em todos eles encontrei espaços de reequilíbrio, pessoas com quem partilhar um bom dia, com quem partilhar um abraço ou algo mais puro ainda. Tenho muitas saudades desses dias em que uso estas botas.
Despeço-me deste colégio em que as expectativas são enormes, onde perdemos muitas vezes o verdadeiro caminho da aprendizagem.
A caminho pelos bosques da Galiza aprendi continuamente a caminhar e vi cada um a superar-se tornando possível o sonho de sermos pessoas melhores. Chego aqui como se fosse um pássaro e estas botas as minhas asas.

Não me sinto, ainda, preparado para voar do colégio, torna-se difícil pensar noutros caminhos e noutros companheiros. Como diria o Zé Rui, espero profundamente que este sentimento de perda seja relativizado pela vossa presença em mim, pela minha presença em vós e pela de Deus em nós.
O resto não se diz, nem se tenta dizer.
Vemo-nos a caminho (despretenciosamente como peregrinos).



a seta

A seta é como o farol para as pequenas embarcações que anseiam por um porto de abrigo.
Ela guia-nos, peregrinos da vida, na busca do Teu Caminho, na procura de um local onde algo indescritível se apodera dos olhos que nos rodeiam, onde uma luz fortíssima emana de cada rosto.
É este pequeno símbolo do Caminho que nos convida a seguir em frente, mesmo quando as dores sufocam a alma e impele cada um de nós para a praça do Obradoiro, praça que brilha de uma forma intensa no momento da chegada.
A seta ajuda-nos a caminhar na graça, a procurarmos os outros e a partilharmos cada Caminho com eles. Foi o que todos fizemos durante estes três intensos anos.
Permite Senhor, que ela nos indique o sentido a tomar perante os difíceis e sinuosos trilhos que iremos encontrar ao longo da nossa vida.



a mochila
[entrego esta mochila]
dentro dela trago os meus sonhos, utopias e ilusões. É aquilo que me dá a forma humana e alimenta o meu pensamento.
Guardo-a com toda a minha força e rezo cada dia que passa para não a perder. É nesta mochila que guardo as minhas lembranças, lições, lágrimas e sorrisos... nela guardo memorias, com muitos ou poucos momentos.
Nasce connosco, vê-nos crescer, ajuda-nos a viver... partilhamos com ela a nossa intimidade... partilhamos um gesto condescendente com a morte.
O caminho ajudou-me a dar-lhe um novo significado... Não serve simplesmente para levar objectos... ela é a testemunha de cada passo que dou, de cada lágrima que cai, de cada palavra que digo, do silêncio que me acompanha até Santiago... Foi com ela que aprendi a caminhar, pela vida fora; aprendia a calcar a terra com a firmeza de um ser humano e a sentir o ar com a humildade de um peregrino. Com ela falo através de um alfabeto de silêncios e com uma fugacidade tão própria da juventude.
Daqui a uns anos vou continuar a ter uma mochila ao meu lado... cheia de momentos como este e pronta a acompanhar-me para onde a vida me levar."





atamos laços que se tornam nós tão intrincados que na hora de os desatar não lhes percebemos as voltas...

a insustentável leveza do pato

Há pouco mais de uma ano vi um filme mexicano chamado "temporada de patos". não achei um filme particularmente interessante com a excepção de uma música e desta citação:

"muitas vezes os patos sentem uma grande necessidade de migrar.
não é que um pato que emigre seja um mau pato.
mostra apenas que é a sua natureza que o faz emigrar"

devo ter algo de pato em mim...

caminho novo

lembro-me que quando comecei a decorar a minha casa decidi criar um espaço à minha imagem - minimalista - (quase higienicamente minimalista) onde me sentisse bem. e assim o fiz, mas não me senti bem. era a minha casa, mas não era o meu lar. tornou-se o meu lar porque ganhou a minha vida, o meu cheiro, o meu ar. tornou-se o meu lar, porque o povoei com as coisas que me povoam.

sempre fui um fiel defensor que eu não sou apenas eu. sempre acreditei - senti - que há em mim alguma coisa de todas as pessoas que caminharam comigo. deixaram em mim uma marca mais profunda ou menos profunda, mas uma marca de Amor, de Vida, de Caminho...

povoei a minha casa com as marcas do amor que sinto por várias pessoas e que elas sentem por mim. não dispenso na minha decoração a cruz que a minha mãe me comprou na polónia, a foto da dani, a vela da verónica, os livros do rui, o tau que o filipe me deu e que está ao lado do "PEZ dispenser", o koala que a kia, a kitxi e a pingas me deram, a foto da pingas, a tartaruga que o zé miguel me deu...

amo profundamente estas coisas porque amo profundamente as pessoas que nelas se tornam presentes. são marcas no meu caminho, são as minhas marcas...

soube hoje que a inês vai seguir por um caminho novo. lembro-me do olhar impávido que ela fez quando eu entrei na aula dela pela primeira vez, e lembro-me do ar contestário que punha quando lhe chamava a atenção por estar a falar, tão bem como me lembro dos olhos dela quando soube que tinha sido uma das escolhidas para ir ao caminho ainda no 9º ano...

tenho um orgulho enorme no caminho da inês... tenho um orgulho enorme por poder caminhar com ela. povoa o meu coração e há-de sempre povoar o meu lar o sorriso da inês, e o abraço da inês, e a pureza da inês, e a riqueza da inês, e ...

ao perceber que o meu caminho com ela vai mudar, não posso senão sentir uma gratidão imensa por ter tido a oportunidade de ter começado a caminhar com ela. uma gratidão só comparável à certeza de que mesmo por estradas diversas continuarei a caminhar com ela e ela comigo e vê-la-ei a fazer grandes coisas, coisas à medida do seu coração... continuarei a povoar o lar da inês, tal como ela povoa o meu...

por muitas voltas que os nossos caminhos dêem, a inês é parte inextricável do meu Caminho. é inextricavelmente parte de mim...