pedimos desculpa por esta interrupção.
a emissão será retomada dentro de momentos.

cantos de sol




ontem, e pela primeira vez em muitos meses, peguei novamente na mota e fui até à beira mar, andar um pouco a pé no areal. lembrei-me da sophia e de ela dizer algo que eu já postei em setembro de 2007: "quando eu morrer, voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar."

pela primeira vez em muitos meses, regresso ao trabalho retemperado, a sentir-me eu. regresso ao colégio capaz de enfrentar moinhos e gigantes...

untill it is my turn

"as long as I allow one single person's civil rights to be disrespected, I have no right to complaint when they come to disrespect mine."
[enquanto eu permitir que os direitos de uma única pessoa sejam desrespeitados, não tenho o direito de me queixar quando eles (os o que o fizeram) vierem para desrespeitar os meus.]

ouvido de passagem, dito por um personagem insignificante, no brilhante filme MILK do gus van sant.

lectio

sempre me desgostou a palavra lição, pois deriva de lectio, [que tem também a ver com a inglesa lecture] e que reporta ao tempo em que as lições, as aulas, eram palestras. o Doutor falava e os ouvintes/alunos ouviam.
talvez por não gostar da lectio não desenvolvi esse incrível dom de falar muito tempo sobre um assunto, o que leva a que simplesmente não o faça. e talvez por não o fazer não desenvolvo o dom e o gosto.
prefiro pensar em mim mais como dialogante do que discursivo, e nas minhas aulas como espaço de diálogo, em que o discurso, embora presença imprescindível é colocado em segundo plano, o que, felizmente, a minha disciplina permite. podia dizer-se que opto pelo caminho mais fácil, embora a experiência [que de aulas é curta, mas de encontros e gestão de grupos é já de 18 anos] me faça sentir o contrário: se preparo o meu discurso em casa e o sigo à risca não preciso de lidar com imprevistos. se preparo apenas o diálogo, exponho-me obrigatoriamente a que não necessariamente concordem comigo.

hoje as minhas aulas foram assim. um diálogo. quer a do 12º, quer a do 7º, quer a do 8º. e saí de lá a sentir que tinha sido ouvido tanto quanto ouvi. que tinha sabido fazer as perguntas necessárias que eles fizessem a si próprios. senti que dei passadas largas com eles, e que fizemos caminho sério e verdadeiro. senti que hoje fui importante para eles precisamente por ser "o idiota que se farta de lhes fazer perguntas", como dizia há dias a uma turma do 11º ano. já não o sentia há muito tempo, e fez-me bem. ajudou-me a perceber o valor do meu trabalho o que, frequentemente, pela pressa dos dias, não é fácil...

Há o silêncio de antes da palavra.
E aquele que, depois dela, deixa sítio
para subirem pausas
com outras dentro desenvolvendo o limbo
por onde suba inviolável, alta
a melodia do que foi esquecido.
Esse silêncio pauta.
Vai decifrando vestígios
de quanto o precedeu no gasto mapa
de que é possível compulsar o ritmo.
E estar à escuta com, ao fundo, a alma
a desprender-se. Subindo
até o silêncio recobrir a água
e desnudar a solidão do espírito.

Fernando Echevarria (n. 1929)

[coloco este post no desconforto por citar duas vezes tão próximas o SNPC, mas hoje era REALMENTE isto que queria dizer.]